Livro infantil discute importância da comunicação em Libras

deus-sabe-lingua-de-sinais-fcmscspNo dia 8/9, quinta-feira, foi lançado durante a 14ª Jornada Acadêmica do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, o livro infanto-juvenil “Deus sabe língua de sinais?”.

A obra, de autoria de Guadalupe Marcondes de Moura, professora do curso de Graduação em Fonoaudiologia da FCMSCSP, conta a história de Gabi, uma menina surda de 9 anos, que se comunica na Língua de Sinais. Gabi é filha de pais ouvintes que aprenderam Libras para se comunicar adequadamente com a menina. Um dia, a garota que é muito curiosa faz a seguinte pergunta aos pais: “Deus sabe língua de sinais? Será que me entende em Libras?”.

A inspiração para a criação da obra, de acordo com a autora, foram as crianças surdas e suas famílias ouvintes atendidas em mais de uma década de trabalho dedicado à Audiologia Educacional, área da Fonoaudiologia que realiza o processo terapêutico da pessoa surda. “Vendo a dificuldade das famílias ouvintes em lidar com a surdez em uma perspectiva que não tivesse o peso da patologia, mas que considerasse a diferença linguística da pessoa surda, pensei em escrever um livro que mostrasse a elas que é possível ter uma comunicação familiar normal, saudável e feliz em uma perspectiva bilíngue, ou seja, em Libras e em português”, conta.

guadalupe

Guadalupe Marcondes de Moura, professora do curso de Graduação em Fonoaudiologia da FCMSCSP

O livro aborda ainda o despertar da criança para a consciência de Deus e a importância da comunicação e interação com tudo o que existe na natureza. “O papel fundamental da linguagem na organização do pensamento e na formação de quem somos é ressaltado nessa história, capaz de tocar os corações em todas as línguas. Estes são temas muito importantes para mim e que são extremamente atuais, tendo em vista os desafios vivenciados pela humanidade nos dias de hoje”, afirma a autora.

O lançamento do livro, que é ilustrado por Rebeca Storrer, ocorre em setembro, por representar o mês de luta da pessoa surda. Além do lançamento na 14ª Jornada Acadêmica do Curso de Graduação em Fonoaudiologia da FCMSCSP, estão previstos eventos no Distrito Federal, na Bahia e em diversas cidades do interior paulista.

Texto originalmente publicado no boletim Conectar, edição 96, em 6/9/2016. Assine nossa newsletter:http://www.fcmsantacasasp.edu.br.

Ausência de conhecimento em Libras limita acesso de surdos a serviços básicos da saúde

A falta de comunicação entre surdos e ouvintes gera limitações na troca de informações e no convívio social. Preocupada em formar profissionais bilíngues para facilitar o acesso desse público a serviços essenciais, como o da saúde, a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo oferece a disciplina de Língua Brasileira de Sinais (Libras) em todos os cursos da Instituição, inclusive naqueles em que o programa não é obrigatório.

A Libras é utilizada por uma expressiva parte dos surdos brasileiros e é reconhecida pela Lei Federal n° 10.436 de 24 de abril de 2002. Assim como os diversos idiomas existentes, ela é composta por níveis linguísticos como fonologia, morfologia, sintaxe e semântica. De acordo com Sylvia Lia Grespan Neves, professora da disciplina de Libras da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, e que também é surda, ainda existe uma grande dificuldade para os não ouvintes no Brasil, principalmente pela falta de preparo de profissionais nos serviços básicos, que desconhecem totalmente a língua de sinais.

“Imagine um surdo chegar a um hospital e não poder se comunicar. Certa vez, fui realizar uma ressonância e os atendentes da instituição de saúde não estavam seguros o suficiente para me recepcionar. Nós, os surdos, percebemos que há uma carência de pessoas bilíngues, sendo importante que as empresas também disponibilizem intérpretes”, afirma. Sylvia comenta ainda que vivenciou muitas situações que causaram constrangimento pela falta de compreensão e conhecimento por parte das pessoas ouvintes.

Em pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 9,7 milhões dos entrevistados declararam ter deficiência auditiva (5,1%). A deficiência severa foi admitida por mais de 2,1 milhões de pessoas. Destas, 344,2 mil são surdas e 1,7 milhão têm grande dificuldade de ouvir. De acordo com a professora do curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Guadalupe Marcondes de Moura, a surdez pode ter causas pré, peri e pós-natais, entre elas: quadros hereditários/genéticos, doenças adquiridas pela mãe durante a gestação – como a rubéola, sífilis e toxoplasmose, por exemplo –, uso de remédios ototóxicos, anóxia, meningite e otites, entre outras. “Traumatismos cranianos e a exposição contínua a ruídos ou a sons intensos também podem prejudicar a audição”, completa.

Guadalupe explica que a Libras é considerada a língua natural das pessoas surdas, porém algumas conseguem desenvolver a oralidade, contudo, o desenvolvimento dessa habilidade depende de inúmeros fatores. “Não utilizamos o termo “surdo mudo”, visto que, mesmo que o indivíduo não tenha desenvolvido a fala, não significa que ele não tenha a capacidade de utilizar o seu aparato vocal na emissão de sons. A terapia fonoaudiológica pode contribuir para que pessoas surdas consigam falar; esses são os chamados surdos oralizados. Porém, existem questões como a idade, tipo e grau da perda auditiva que vão impactar no desenvolvimento dessa habilidade”, diz.

A fonoaudióloga refere que o grau da perda auditiva influencia no uso do aparelho de amplificação sonora individual (AASI) e na indicação do implante coclear. “Para se beneficiar do AASI é necessário que o indivíduo apresente resíduos auditivos, pois a prótese amplifica os sons externos. Já o implante coclear é colocado por meio de um procedimento cirúrgico e geralmente indicado para pessoas que não se beneficiam do aparelho auditivo convencional”, afirma.

Segundo Guadalupe, a aquisição da Libras não é incompatível com o desenvolvimento da oralidade, podendo até mesmo facilitar o processo de compreensão de uma segunda língua, como o português escrito, por exemplo. “Nós trabalhamos dentro de uma proposta bilíngue. Acreditamos que nossos pacientes têm o direito de desenvolver a língua de sinais e a língua portuguesa escrita, bem como usufruir das tecnologias existentes para que também tenham a opção de desenvolver a língua oral. Precisamos somar os esforços; é preciso garantir o direito ao desenvolvimento pleno dessas pessoas com o objetivo de melhorar ainda mais sua qualidade de vida. Nossos alunos aqui da Faculdade Santa Casa de São Paulo, em sua formação, são estimulados a olharem para essas pessoas com ética e respeito. Isso é essencial”, finaliza.

Texto originalmente publicado no boletim Conectar, edição 28, em 18/10/2013. Assine nossa newsletter http://www.fcmsantacasasp.edu.br.